As formas da dor

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É sempre muito difícil descrever a dor. Em qualquer circunstância.
Quando vou ao médico, com minha constante dor de estômago, o doutor já sabe exatamente o que é. Mas, existem certas características da dor que não conseguimos descrever. Um sentimento tão complexo que dói em uma parte do nosso corpo que não conhecemos bem.
Esses dias senti uma dor. Era estranha. Não doía em um local específico, não! Era um misto de aperto no peito com dor muscular. Os braços sentiam falta de um aperto e ao mesmo tempo o coração estava sendo espremido por alguma coisa invisível.
Tentei identificar o local exato do latejar, a fim de encontrar algo que fizesse parar. Mas o sufocar da dor estava por todos os lados. Era como se eu estivesse jogada no chão, sendo pisoteada.
Encolhida no espaço curto do meu sofá, eu entendi o sentimento. Não a dor. A dor não estava ali pra ser entendida. Ela estava ali como um aviso, um alerta. Algo que só entendi quando, na agonia que ela me causava, vi seus olhos no escuro do meu pensamento.
Vi o castanho, quase mel, dos seus olhos se afastando lentamente. Não havia a promessa da volta, havia apenas a ida. E então se foi.
Escura e vazia era a dor. Característica estranha para algo que dói, mas era a forma da minha dor. Não era sofrida, mas angustiante. E quanto mais apertava, mais clara ficava a imagem da sua ida. Um adeus tão simples e rápido não deveria causar tanta dor. Não houve gritos ou choro. Muito menos mágoa. Não tinha sobrado nada de nós. E talvez por isso doía.
Na dor eu entendi que aquilo tudo era saudade.
Não saudade daquilo que vivemos, mas daquilo que deixou de existir quando seus olhos se afastaram dos meus. As imagens que surgiam na minha mente escura não eram as que passamos juntos, mas as que eu ainda queria viver.
A dor não era pela saudade daquilo que não voltou. Era pela saudade daquilo que não vivemos. E, depois de entender o alerta da dor, ela tornou-se apenas um incomodo muscular, que me avisava de tempo em tempo sobre aquilo que deixei ir e as coisas que poderiam vir se seus olhos não tivessem se afastado de mim.

A loucura da realidade

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18:35, metrô de São Paulo, linha vermelha. Caos.
Mais do que isso. Calor, suor, cansaço, insatisfação, infelicidade, indiferença, e uma mulher. Alta, magra – até demais -, cansada. Morena, dos cabelos lisos, porém bagunçados. Vestia um vestido florido estranho demais. Uma sapatilha surrada e um rosto triste.

No braço esquerdo uma grande bolsa repousava, enquanto uma mochila um tanto quanto masculina estava em suas costas esqueléticas. Ela olhava para um lado e para o outro rapidamente, enquanto o metrô esvaziava.

De repente, buscando o pouco de ar em seus pulmões, ela começou a gritar. Seus olhos se arregalaram como se estivesse em uma situação terrivelmente insana. Ainda estava segurando suas bolsas e com a mão direita se equilibrava segurando o ferro.

Todos do vagão se voltaram para ela, que berrava sobre como estava cansada da vida que levava. Gritava o que fazia, como vivia, o quanto lutava para passar de um dia para o outro. Algumas pessoas se afastavam com medo. Afinal, quem é que fica gritando as dificuldades da nossa própria vida por aí?

Eu tentei olhar profundamente em seus olhos, buscando algum pingo de insanidade, enquanto ela ainda berrava a raiva que sentia e apontava para pessoas engravatadas o quanto eles deveriam estar felizes por ser o que são, estar onde estão. Mas eu não encontrei nenhum aspecto de loucura. Pelo contrário, eram olhos sinceros, que vez ou outra, durante o discurso, se enchiam de lágrimas.

— É louca — diziam as pessoas.

Mas que loucura é essa que diz a verdade? Que loucura é essa que diz exatamente o que mais da metade das pessoas ali dentro gostaria de berrar mundo a fora? Que loucura é essa que desabafa com sinceridade a realidade de meio mundo?

Aos poucos, a mulher foi se acalmando. Colocou os fones de ouvido e começou a cantarolar.

Quando cheguei ao meu destino, contei ao meu pai o episódio da mulher maluca do metrô. Ele apenas olhou para mim e dando de ombros disse:

— É a loucura da nossa realidade, Aline.

projetocmImagem: We Heart It

“Com o tempo, aprendi a precisar de menos gente ao meu redor. Aprendi que as pessoas crescem, criam obrigações, preocupações e problemas. A maior parte das delas não consegue crescer sem amargar e eu tento bravamente manter a minha dose de doçura, nem que seja um pouco mais sozinha a cada dia. Eu me acostumei com o fato de que inúmeras pessoas cruzarão o meu caminho sem acrescentar muita coisa, sem notar as minhas melhores qualidades e sem olhar honestamente para mim. É uma pena, mas a verdade é que a gente está se habituando a ter apenas relacionamentos casuais, com o coleguismo raso e com as palavras cada vez mais vazias. Contudo, todo hábito estremece com a novidade. Toda vida se revira porque o novo sempre surge. Mesmo que inesperadamente, eu me pego gostando de novas gentes, vejo minha vida ganhar novos sorrisos e testemunho ações desinteressadas das quais eu já havia desacreditado há tempos. De repente, você se vê acreditando novamente na natureza de alguém, se vê entrelaçando os dedos e caminhando ao lado da amizade, ganhando novos, fortes, e sinceros abraços. De repente você se vê cúmplice em desabafos, se pega dividindo o copo, as esperanças, a vida… Que bom que o mundo gira, que a vida circula e que a gente muda. Que bom que você veio, transformou, acrescentou, me olhou com verdade e me abraçou com ternura. Que bom que você veio… Vê se fica dessa vez.”

Projeto Inspiração foi criado pela autora Christine M. Quer saber mais sobre ele ou sobre a autora? Acesse o site: http://www.christinem.com.br/

Chris (1)

Paulistana, balzaquiana, habitante oficial do mundo da lua, mestre cuca de feriado e adoradora do culto ‘papo furado e risada solta’. Publicou três livros e diz que isso é só o começo. É professora, “escrevedora” e um ser pra lá de pensante.

Projeto Inspiração – Christine M.

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#Entre Linhas – O outro ângulo

Entre Linhas, Textos

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Nunca gostei muito da palavra “mudar”. Talvez seja porque ela é quase um sinônimo de “sair do conforto”. Mas, hoje, num dia como qualquer outro, notei algo que nunca havia reparado. Sabe aquilo de: “o essencial é invisível aos olhos”? Sábio Antoine de Saint-Exupéry. Talvez os meus olhos estivessem mais sensíveis hoje e, durante o caminho que faço todos os dias, percebi que não sou a única com o tal medo do “mudar”.

Percebi que a gente tende a seguir os mesmos passos. Todos os dias. Sentamos sempre no mesmo lado no ônibus, andamos sempre por um mesmo lado da calçada, damos sempre um simples aceno de cabeça para a recepcionista do trabalho… Como se tudo já estivesse devidamente traçado. Como se a vida fosse um jogo de vídeo-game que gente para de jogar sempre à meia noite, só para dar restart no dia seguinte, na mesma fase.

Conforto? Comodismo? Pressa? Sei lá! Mas, hoje, quando meus olhos estavam mais ligados ao coração, percebi que a vida pedia para eu olhá-la por outro ângulo. Então mudei de lugar. Percebi que do outro lado da janela do ônibus a vista era bem melhor. Eu não via só os prédios e casas, conseguia ver melhor as ruas e as praças. O sol não atrapalhou, pelo contrário, me acolheu. Mudei também o lado da calçada enquanto andava e reparei que ali havia uma árvore enorme. O vento fazia com que as flores caíssem sobre mim enquanto eu passava, impregnando um cheiro bom nos meus cabelos. Quando passei pela recepcionista simpática do trabalho, perguntei como ela estava. A moça se surpreendeu e sorriu.

Talvez hoje você decida também olhar a vida de outro ângulo, mesmo sem saber o que te espera. Talvez, ainda, do outro lado da rua não tenha algo tão bom assim quanto do lado que você está agora, mas mesmo assim você vai enxergar aquilo que você jamais havia visto e vai voltar para onde você sempre esteve de forma diferente.

#Entre linhas – Eu, eu mesma e minhas neuras

Entre Linhas, Textos

As pessoas dizem que é gostoso dormir com chuva. Mas eu não consigo apagar com o barulho das gotas caindo e batendo em minha janela. As pessoas dizem que não é bom ficar sozinho. Mas, se o dia está feio, eu fecho as cortinas, fico no escuro, contemplo meu silêncio. Me perco no vazio da solidão.

O telefone toca, mas eu não atendo. Ligo a luminária para ver somente aquilo que é preciso enxergar. Nada mais, nada menos que a simples sombra do que está ao meu redor.
Me enrolo no edredom que me protege do que está lá fora e decido não ligar a TV.
Em qualquer outro dia, o medo e a ansiedade me dominariam, me dizendo que eu precisaria sair dali o quanto antes, fazer o que precisava fazer, dizer que o que precisava ser dito. Que eu precisaria me manter alerta, acordada, pensativa… Brigaria com a vida, com as neuras da solidão, com a preguiça do dia frio. Mas naquele dia, ali, eu estava em mim e nada me tiraria de mim mesma.
Ali, no meu silêncio, eu abraçava meu medo e o entendia. Enfrentava meus anseios e os compreendia. Eu entendia e me calava. Eu silenciava sobre minhas vontades e me notava. Eu enxergava meu interior e me achava.
Era ali que eu era eu.
E no final do dia, vencido meus monstros internos, eu sorri satisfeita por ter me encarado sem usar o mentiroso do espelho, sorri por ter me enxergado no escuro e dormi feliz com as gotas da chuva na minha janela.

 

Aline C. Carrasco

#Entre Linhas – Planejamento

Entre Linhas, Textos
John Lennon

Nós planejamos. Cada passo, cada detalhe, cada diálogo. Passamos a noite toda desenrolando fatos, momentos em nossa cabeça, deixando sempre o sono de lado, até que o futuro perfeito se apresente em imagens em nossa mente. Aí sim dormimos.

E todos os dias são assim. O planejar constante de uma vida perfeitamente desenhada. Traços retos com pequenas curvas. As escolhas certas, as consequências calculadas, o diálogo elaborado. Tudo pronto para ser enfrentado fora da nossa mente. Estamos confiantes!
Então, começa a busca desenfreada, colocar todos os planos em prática. Fazer acontecer! Uma vida sem freio e mais noites de pensamentos constantes.
Mas no meio do caminho tinha uma pedra. Tinha uma pedra no meio do caminho. Ela fez você dar a volta, recuar um ou dois passos, escolher um novo atalho, buscar novos jeitos… planejar de novo, diferente. Muitas vezes até recomeçar.
Ê vida inconstante.
É difícil aceitar no começo. Ter que mudar seus planos, mudar os detalhes, os passos, os diálogos. Mudar. Entrar em outro caminho, descobrir novos horizontes, gostar. Você descobre que este caminho tinha menos pedras, descobre que o diálogo ficou bem melhor assim, que as consequências não foram aquelas que você imaginou, mas estavam melhores.
Então você gostou, ficou. E esperou que a vida mostrasse o próximo caminho a seguir.
Aline Cintra Carrasco

#Entre Linhas – O tempo…

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É notável o passar dos anos em qualquer circunstância. Na mais simples fotografia revelada, ao singelo sorriso que outrora era exibido, sem receio. Uma carta de amor, um “eu te amo” nunca mais proferido com tanto gosto pela pessoa amada, um rosto angelical ontem admirado… É, o tempo passa, levando consigo as diversas lembranças de um ontem agradável. Eu poderia muito bem guardá-las, em uma caixa de madeira bem velha, para que fiquem empoeiradas em qualquer canto do meu quarto. Em um lugar em que o sol não chegasse e que não pudessem obter vida. Mas, as deixo espalhadas, livres, vivas… As boas e as más lembranças, para que o passar dos anos não seja tão notável assim, para que eu possa revivê-las e sentir a presença, ainda transparente, de tudo aquilo que já se foi. Que já se foi, sim! Passado. Mas que não precisa estar enterrado, esquecido…

Aqueles que fazem do passado um martírio, não sabem valorizar o passar dos dias. O ontem foi um aprendizado, o hoje está sendo e amanhã ainda será. Por isso, as deixo livres e vivo entre o passado e o presente, moldando meu futuro com tudo o que aprendi do que já se foi. E que bom poder sentir de volta todas as lembranças felizes, daquilo que me fez ser o que sou hoje. É por isso que peço… Que seja livre o passado, para rodear todas as partes do meu ser, e que passem os anos e eu as possa fazer memórias concretas, ainda vivas, de uma vida cheia de felicidade.

Aprenda a viver sim do passado, porque aquela velha fotografia revelada, o “eu te amo” proferido pela pessoa amada há muito tempo, e todas as lembranças que você deixou presas na velha caixa de madeira, pegando poeira em um canto qualquer, um dia lhe fará sorrir de novo. E esse dia pode estar mais perto do que você imagina.