Quando viver era mais fácil 

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Eu fico repassando na minha cabeça todos os dias em que nos encontramos. Primeiro pelos melhores momentos, aqueles me fazem suspirar ainda, mesmo com a ausência. Depois, todos os pontos em que eu possa ter errado. Um olhar torto, uma palavra que não agradou, algum detalhe ou jeito que o desinteressou. Aconteceu que me quebrei. 
Sou dessas que vive se quebrando. Todas as vezes eu espero ir além e simplesmente me parto ao meio. 

Me lembrei agora de quando você disse que “era mais fácil viver quando não te conhecia”. Foi num bom sentido, como quem diz que agora quer mais.

Só que do dia pra noite a frase que tanto tinha me tocado me feriu. Sou eu quem digo agora que “era muito mais fácil viver quando ainda não te conhecia”, simplesmente porque você se foi. 

Assim, do nada. Foi e não vai voltar. E o pior é que eu insisto em entrar na mesma história todas as vezes. 

Fica difícil viver a vida conhecendo gente que fica, mas não mora.

Gente que entra, faz festa e só deixa o resto… Aí o que parecia arrumado fica bagunçado de novo. E de novo. E de novo. 

Procura-se amor em forma de música

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Sempre quis amar alguém que amasse música da maneira como eu amo. Alguém que pudesse me acompanhar toda vez que eu cantarolasse alguma coisa. Ou que se empolgasse tanto quanto eu, enquanto dirijo e ligo o som do carro.

Eu sempre quis ser apaixonada por alguém da mesma maneira como sou apaixonada pela música. Sentir cada nota como um pulsar do coração. Ouvir aquela voz grave e rouca que me arrepia dos pés a cabeça, e amar enlouquecidamente alguém com essa voz. Amar alguém de forma tão apaixonante como é o som de uma guitarra.

Eu sempre sonhei em amar alguém em que pudesse compartilhar comigo o mesmo sentimento que a música me desperta. Ser completamente apaixonado e me fazer apaixonar-me com música. Fazer amor com um som suave. Acordar ouvindo acordes. Dormir ouvindo amor.

Amar alguém que ame música, pra mim, é a forma mais linda de amor. Amor em melodia é muito mais bonito.

Quero encontrar sons, acordes, batidas, solos, riffs e ritmo quando me apaixonar por alguém. Quero ser a música mais bonita do mundo pra alguém.

E, se um dia eu encontrar, tenho certeza que vou tocar essa música pro resto da vida.

Dos medos

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Das faltas que tenho, uma delas é de não ter medo.
Não que eu tenha sido sempre uma pessoa corajosa. Pelo contrário! Quando criança eu tinha medo de sair correndo na rua de casa, que era uma ladeira, porque não queria cair e ralar os joelhos como acontecia com as outras crianças.
Depois eu comecei a ter medo de mudar qualquer coisa de lugar ou de fazer provas. Eu tremia, meu coração acelerava e eu ficava sem ar.
Ir aos parques de diversões com a escola era raríssimo, porque eu mal conseguia entrar na fila da montanha-russa e já começava a suar frio.
Não havia ninguém pra me dizer: “Ei, vai com medo mesmo. Vai dar tudo certo!”. Não tinha absolutamente ninguém. Era só eu e uma voz que dizia: “Se tem medo, não vai, não faz. Melhor ficar quieta”.
Com o tempo eu percebi que virei uma covarde. Que me acostumei a não fazer as coisas por medo de não conseguir ou de dar errado. Eu percebi que cresci sem ter ido numa montanha-russa. E que eu deveria ter corrido ladeira abaixo, para ter cicatrizes nos joelhos e uma boa história para contar.
Ninguém me falou que a vida, mais para frente, daria muito mais medo. Eu queria muito que alguém, em alguma parte da minha vida, tivesse olhado nos meus olhos medrosos e falasse: “Vai com medo mesmo, menina!”.
O medo me deu a falsa segurança de que vivi tudo certinho. Mas hoje eu percebi que ele me impediu de fazer coisas, de falar com pessoas, de ter histórias… Porque hoje eu tenho o maior medo de todos: o futuro. E ainda não tem ninguém para dizer: vai assim mesmo.

Limpando a casa

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Certa vez, depois de ter passado por uma tempestade na vida, ouvi uma coisa tão interessante que exatamente agora faz todo o sentido.
Ouvi de uma pessoa que eu mal conhecia que cada um de nós é uma casa e que é como cuidamos dela que faz com que a vida ande.

Fiquei pensando nisso nos últimos dias. Quando estamos com a casa cheia, a gente faz festa, como se nada pudesse no abalar. As pessoas entram, comemoram, sentam no nosso sofá, deixam o copo plástico do refrigerante na nossa mesinha de centro… Mais tarde elas vão embora e o que fica é a bagunça, a sujeira. Isso se repete muitas vezes, por dias, por meses, anos.

A vida passa e a gente começa a se acostumar com a casa cheia, bagunçada e suja. De repente, as pessoas não conseguem mais entrar. A porta fica emperrada, as janelas já não permitem que o sol entre. O que era normal, começa a ficar confuso, triste e solitário. A gente pensa em agradar os convidados, sem se importar se a casa está organizada. E a verdade é que a gente só percebe isso quando ninguém mais consegue entrar… Quando a bagunça é tanta que não se acha nada na montoeira de coisas espalhadas.

Minha casa estava assim. Vazia e bagunçada. Eu já não sabia mais quem estava lá dentro e quem precisa sair. A vida parecia não andar.

Confesso que depois de um tropeço ou outro foi que eu percebi que precisava limpar minha casa. E não foi tão fácil assim. Eu precisei me livrar do comodismo e ficar completamente sozinha.

Tive de visualizar a casa completamente e chorar por ter deixado chegar naquele ponto. Chorei por cada canto dela, mas eu fiz o que precisava fazer.

Eu posso ter deixado alguém para trás, pode ter doído precisar jogar fora algumas coisas, abandonar outras, permitir que muita coisa vá embora. Mas eu precisava ficar sozinha, separar o que sairia e o que ficaria. Afinal, como vou apresentar minha casa à alguém do jeito que ela estava? Quem iria querer ficar com essa casa assim, se nem eu mesma conseguia andar por ela?

Não faz muito tempo que eu comecei a faxina, mas eu já senti o quentinho do sol entrar por uma fresta na janela e aquecer parte do meu corpo, antes anestesiado. Uma coisa boa que nasceu no meio do cansaço da limpeza. Como se novos sonhos, novas esperanças e planos começasse a entrar pela fresta, junto do sol.

E e eu continuo aqui, sentada no chão da sala e de mangas arregaçadas. Vez ou outra uma lágrima escorre dos meus olhos, mas já me disseram que faz parte do processo da limpeza.

A solidão tem me feito bem e, enquanto eu limpo, encontro mais caminhos. Um dia, quem sabe, eu não abra de novo a porta de casa e te convide para um café.

A vida que dê um jeito…

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Nunca senti tanta dor. Nunca perdi tantas coisas. Nunca senti tanto medo.
Se eu soubesse que crescer me traria tantos pesadelos, eu gostaria de voltar no tempo. Ou então, que a vida desse um grande pulo e me levasse para um lugar na vida em que tudo já estivesse resolvido. Uma casa grande com jardim, outro país, um cachorro, um bom emprego… Eu nem cobraria outro alguém da vida. A vida que me perdoe, mas de outro alguém eu tô é cheia. Cheia de amargura por outro alguém.

Porque, sinceramente? Eu perdi a fé na humanidade há um tempo. Perdi a esperança de tempos melhores, de pessoas que não machuquem, de palavras que não me soquem, de atitudes que não matem.

A perda me trouxe o medo e a dor. E essas duas têm uma carga enorme, difícil de ser retirada. Mas a vida que dê um jeito… Ela que resolva me aliviar os ombros, porque a dor já me faz andar com a cabeça baixa. Ela que preencha o buraco no meu peito, porque o vento passa forte por ali. Ela que remova o entulho de decepção que se instaurou em todo o meu corpo, porque levantar da cama de manhã é como tentar se soltar de uma camisa de força.

Eu só peço que a vida não me dê coisas para me tirá-las depois. Porque no meu coração eu só tenho o vazio, mas no meu entulho da vida… Ah, esse está cheio.

Gente que me faz escrever

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Sou movida à palavras. Escrita, falada, às vezes dita pelo olhar. Eu guardo palavras desconexas só para juntá-las nas páginas em branco do meu caderno. Fico em silêncio só para ouvir bem cada sílaba que sai das bocas por aí. Mas eu gosto mesmo é de gente que me faz escrever. Aqueles que sentam do nosso lado no ônibus e contam o quão a vida parece injusta. Cada drama se transforma em um personagem, em dois capítulos, em um título. Eu recrio a dor, a paixão, a tristeza. Guardo cada momento eternizado nas folhas rabiscadas.

Eu gosto mesmo de gente que conversa. Que te conta a vida olhando seus olhos, porque nada é mais profundo e intenso do que olhar nos olhos. Gosto de imaginar aquela pessoa que cruzei na rua. Foi apenas uma batida de ombros e um olhar de perdão. Eu mal o conhecia. Mas já pude imaginar que sua pressa o levava para algo importante. Um casamento? Uma entrevista? Um amor? Eu gosto é dessa gente… Que mexe comigo a ponto de me fazer escrever.

Eu não sei bem se é só o instinto jornalístico, ou mesmo a curiosidade, mas eu adoro mesmo é gente que reaparece na nossa vida e faz aquela baderna. Que conta o que passou e o passa, que diz o que pensa e o que quer.

Que me faz passar a noite acordada imaginando a sua vida inteira sendo recriada em algumas páginas. Histórias que parecem bobas aos olhos dos menos atentos, mas que fazem brilhar os meus.

E pode ter certeza… Se você entrou aqui e mexeu comigo, tem parte de você em cada linha desse texto. De repente, a sua bagunça foi tão grande que tem você em um texto inteiro. Ou dois.

Ele tem medo de você

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Ele namora uma morena, alta e de barriga chapada. Toda semana ela vai ao salão de beleza, faz o cabelo e pinta as unhas grandes e bem alinhadas. A moça trabalha de salto alto, estuda e sonha com o príncipe encantado. Vai casar de véu e grinalda, numa igreja linda de arquitetura espetacular. Vai chamar os amigos e parentes queridos, fazer os votos mais lindos que alguém poderia dizer e, apesar do século XXI a chamar para a realidade da mulher moderna, ela ainda vai querer ser a esposa que lava, passa e cozinha muito bem. Semana passada, depois de sair da academia, ela foi para o primeiro dia de aula de culinária.

Enquanto isso, ele te procura de madrugada para rir de uma besteira, falar palavrão e mandar aquela foto obscena no whatsapp.  É porque você, desde pequena, sonhava em ser uma das panteras, ao invés das princesas. Você detestava aquela frescura! E não é questão de não ser feminina ou vaidosa… Você só se cansa de ser aquilo que esperam que você seja. Cansa só de pensar no salto alto e depois na dor nas pernas. Cansa pensar que fazer a unha vai ocupar o tempo que você tinha para ver o episódio novo de Game of Thrones. Todo esse machismo incoerente te cansa.

E é por tudo isso que ele volta todas as vezes para você. Ele sabe que você largaria a chapinha pelo controle do vídeo-game, e ele acha sexy. Ele sabe que você toparia uma loucura numa noite de tédio. Que vocês poderiam pegar o carro e ir para a praia, só para ver o sol ir embora, enquanto riem de qualquer outra besteira que vocês falam juntos. Ele gosta da sua maneira de ser independente, de não ligar para as bobagens entre a bolsa certa e o sapato adequado.

Você gosta de quando ele deixa a barba por fazer e ele adora quando você diz sacanagem. Porque pouco importa o que vocês falam depois da meia noite. Vocês mal conseguem rotular o que são… Você diz amigos e ele diz com vantagens. Mas isso também não importa, porque ele sabe exatamente aquilo que precisa saber sobre você. Você sabe exatamente aquilo que precisa saber sobre ele.

Às vezes ele some. Simples e sem motivos. Mas é porque ele tem medo de você. Vai por mim, você assusta. Esse seu jeito de fazer as coisas deixa ele confuso. Ele encontra em você alguém que ele confia para ser exatamente quem ele é. Mas no final no dia, a morena da barriga chapada e todo o resto chamam ele para a realidade. Ele tem pavor de saber que você não precisa dele nem para pagar o cinema… Ele acha legal esse seu jeito de resolver tudo sozinha e de mandar ir a merda, mas como qualquer homem, ele quer se sentir necessário. E ah, meu bem, você não precisa dele para fazer as compras do mês ou trocar a lâmpada.

E esse medo é pela mulher independente e segura. É que é muito mais fácil namorar uma Barbie do que a integrante das Panteras. Mas você ainda prefere a ação do que a melação. É, menina, talvez um dia você conheça o cara que vai acompanhar sua vontade de ser livre, ainda que junto de alguém.

 

Carta aberta a saudade racional

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Eu precisa escrever a você, saudade racional.

É porque, veja bem… Fui eu quem escolheu se afastar. E não! Não foi egoísmo. Apesar de você não merecer tantos pensamentos, eu finalmente entendi que o que vivíamos era um déjà vu. A gente já tinha vivido essa história sem final feliz. Sem final, talvez. Sem um “adeus” para sempre. Foi um “até breve”, que ia e voltava para me atormentar. Eu acabaria louca, completamente louca, se não falasse a você que, apesar de tudo, eu sinto sua falta…

Acontece que, da última vez que você voltou, o trigésimo déjà vu das nossas vidas, eu pensei que tinha tudo sob controle. Afinal, eu deveria conhecer os seus trejeitos, sua lábia conquistadora e sua voz irresistível. Eu já conhecia aquela história, de cor, não conhecia?
Mas dessa vez era como um jogo: você disparava de um lado e eu fingia que sabia o que você estava querendo. Mas quando eu revidava… Ah, era só sentimento! Enquanto eu achava que dominava você nesse jogo de quero, mas não posso, você me desvendava por completo. Tirava toda a minha roupa, dedilhava todo o meu corpo, me fazia arrepiar a pele, e conhecia cada detalhe do meu ser. Eu virava um livro aberto, em que cada linha era descoberta e traçada do jeitinho que você queria. Enquanto eu ficava perdida no labirinto que você é.

Mesmo assim, quando você apareceu naquele dia quente, foi tudo tão natural. Eu não tinha raiva de não conseguir te decifrar, porque, evidentemente, a espertinha pensou que um dia fosse conseguir. E aquele presente que você comprou pra mim? “Vi e lembrei de você”. Não foi bem assim… Foi aí que senti raiva, muita raiva de você. E, depois de um tempo, senti raiva de mim mesma! Eu não deveria estar assim, eu nem devia cogitar qualquer possibilidade ser um jogo exclusivo para você. Qual é a sua? Quer dizer… Qual é a minha, afinal???
Eu permiti que você entrasse, sentasse no sofá e bagunçasse a minha casa. Eu deixei você tirar a minha roupa e me deixasse com frio quando quisesse. Eu quase te dei a chave… E percebi: era eu quem precisava ir.

Simplesmente me deixei ir embora. Isso não quer dizer que eu não sinta saudades. É racional, afinal, sentir falta daquilo que, de certa forma te fazia bem, certo? Era só isso que eu queria te dizer hoje, quando você ficou por muito no meu pensamento: eu sinto raiva por sentir saudades. E eu queria não sentir vontade de voltar.

As formas da dor

Comportamento, Entre Linhas, Textos, Uncategorized

É sempre muito difícil descrever a dor. Em qualquer circunstância.
Quando vou ao médico, com minha constante dor de estômago, o doutor já sabe exatamente o que é. Mas, existem certas características da dor que não conseguimos descrever. Um sentimento tão complexo que dói em uma parte do nosso corpo que não conhecemos bem.
Esses dias senti uma dor. Era estranha. Não doía em um local específico, não! Era um misto de aperto no peito com dor muscular. Os braços sentiam falta de um aperto e ao mesmo tempo o coração estava sendo espremido por alguma coisa invisível.
Tentei identificar o local exato do latejar, a fim de encontrar algo que fizesse parar. Mas o sufocar da dor estava por todos os lados. Era como se eu estivesse jogada no chão, sendo pisoteada.
Encolhida no espaço curto do meu sofá, eu entendi o sentimento. Não a dor. A dor não estava ali pra ser entendida. Ela estava ali como um aviso, um alerta. Algo que só entendi quando, na agonia que ela me causava, vi seus olhos no escuro do meu pensamento.
Vi o castanho, quase mel, dos seus olhos se afastando lentamente. Não havia a promessa da volta, havia apenas a ida. E então se foi.
Escura e vazia era a dor. Característica estranha para algo que dói, mas era a forma da minha dor. Não era sofrida, mas angustiante. E quanto mais apertava, mais clara ficava a imagem da sua ida. Um adeus tão simples e rápido não deveria causar tanta dor. Não houve gritos ou choro. Muito menos mágoa. Não tinha sobrado nada de nós. E talvez por isso doía.
Na dor eu entendi que aquilo tudo era saudade.
Não saudade daquilo que vivemos, mas daquilo que deixou de existir quando seus olhos se afastaram dos meus. As imagens que surgiam na minha mente escura não eram as que passamos juntos, mas as que eu ainda queria viver.
A dor não era pela saudade daquilo que não voltou. Era pela saudade daquilo que não vivemos. E, depois de entender o alerta da dor, ela tornou-se apenas um incomodo muscular, que me avisava de tempo em tempo sobre aquilo que deixei ir e as coisas que poderiam vir se seus olhos não tivessem se afastado de mim.