Das coisas que ele nunca vai saber

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Eles se encontram todo final de semana,mas ele não vai passar da beirada. Nadará no raso. É a síndrome incoerente das relações superficiais do século XXI. Ele jamais vai saber o quanto ela é insegura. Ela pode até demonstrar, mas nunca saberá que qualquer passo em falso, palavra mal dita, expressão ou comentário, vai fazê-la dar dois passos para trás.

Ele nunca vai saber o quanto ela já foi quebrada, porque ele nunca perguntou dos outros. Ele nem vai poder comparar o cacos dela com os dele e ver quem é que ganha em decepções.

Ele nunca vai saber que ela é divertida. É a primeira que chega e faz as pessoas rirem. Sem falar nas ironias e sarcasmos que completam esse jeito descontraído dela.

 

Ele jamais vai descobrir que ela não é ninguém antes das 11 horas da manhã. Que o mau humor é terrível e a lerdeza predomina na pessoa. Tudo só melhora com um abraço apertado de quem ela gosta muito e uma música que ela ama.

Ele não vai saber uma das coisas mais importantes sobre ela: o amor incontrolável por música. É certo que ele jamais vai ver sua pele se arrepiar com um solo de guitarra num show de rock, porque ele não faz a mínima em acompanhar.

Ele não vai saber que ela se empolga demais assistindo futebol americano com uma cerveja na mão. Ou vendo o UFC fazendo “outch” quando o lutador é encurralado.

Vai ser impossível ele saber que ela dorme tranquila com alguém. Porque companhia a deixa carinhosa.

Ele não vai entender que ela se faz de durona, fria e bruta, como proteção. É só um escudo. No fundo, meu amigo, ela só tem uma camada. O problema é deixar transparecer.

Ele nunca vai saber que se ela começar a se envolver, o olhar ficará por mais tempo no dele. Ela fica mais pensativa e dedicada. Mais ciumenta e insegura.

Ele jamais vai descobrir o encanto das coisas simples e os sonhos. Em como ela ama cantar no chuveiro e dançar sozinha no quarto com os fones de ouvido. Ou em como ela é cheia de planos e metas de vida. Que se dedica ao extremo aos projetos e ama seu trabalho.

Ele mal vai chegar perto de saber metade dessas coisas sobre ela. Porque quando eles se encontram, os beijos e os carinhos não passam das beiradas dela. Não atravessam o mar vermelho de insegurança e medo que ela coloca na frente.

Se, de repente, um dia, ele quiser lutar com as barreiras e chegar perto de conhecer os pormenores do ser da pessoa nua que ele encara, deitada em sua cama, vai precisar de um exército para fazê-la acreditar que ele quer, realmente, entrar.

Ele a tem nua todos os sábados, mas jamais a terá nua por dentro. Ele não consegue e nem quer despir sua alma ou sua mente. Não o interessa.

Ele não vai saber que ela gostaria de ser decifrada e descoberta. Mas ela também jamais vai falar. Ela é orgulhosa demais para pedir que entrem. Precisa partir dele, caso contrário ficarão lá, no raso. Andando lado a lado, apenas molhando os pés.

É a tal das relações superficiais. É a troca frenética de pessoas em busca daquele que se encaixa melhor, sem tempo de entrar em ninguém. As pessoas não se conhecem mais. Ela não o conhece. Ele não a conhece. E eles continuam andando lado a lado, apenas molhando os pés.

 

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